A noite de magia preta - Por Fabiana Marques

Acordo pela manhã é saúdo meu orí,

Fecho os olhos e reverencio o orí de cada feiticeira que vou encontrar essa noite.   

“Que meu orí, reverencie o seu orí! orí ooo” 

A magia preta vai começar,

Não tenham medo! Quem mandou serem feiticeiras?

O caldeirão vai ferver,

O pássaro preto trouxe a mensagem o link está disponível, podem entrar.

As feiticeiras estão prontas a começar mexer o caldeirão,

É permitido colocar palavras e quebrar o silêncio através da escrita,  

A feiticeira de outro país, está mexendo em sua estante e trouxe livros de diversas magias de afetos, das memorias familiares e viagem pelo mundo,    

A feiticeira do Sul, colocou no caldeirão folhas escritas e desenhadas com seus poemas e pensamentos de Cristiane Sobral,

A feiticeira mais jovem, está mexendo o caldeirão colocando pós e a magia da juventude e afrontamento, com os seus poemas e crônicas, 

A feiticeira de sorriso largo, colocou a magia da mudança, resistência e coragem dizendo: “através da escrita estou me libertando! Estou conhecendo feiticeiras, como:  Maria Carolina de Jesus, Maria Firmina dos Reis, Elizandra Souza, Conceição Evaristo, Carmen Faustino...”

A feiticeira cantora coloca no caldeirão a magia do conhecimento e ressignificação, com as palavras de Audre Lord,

A feiticeira mais velha coloca no caldeirão o fruto da sabedoria e faz as outras repensar na magia chamada a vida, 

A feiticeira mediadora, compartilham escritos, para aguçar as feiticeiras a escrever e fazer magia preta.

O caldeirão está sendo mexido a temperatura aumenta o cheiro doce começa a subir, as trocas são feitas e recebidas. 

As feiticeiras estão trabalhando, movendo e pensando! 

Os cânticos começam ecoar as palavras, entram em ebulição! 

A magia preta está acontecendo. 

Escritos nascem, as palavras se juntam, os acolhimentos acontecem, os corações aceleram, os pensamentos começam a surgir. 

Abro os olhos e vejo que magia preta aconteceu nessa noite e agora posso seguir...


Fabiana Marques. 

Julho/2021


Quem sou eu:  Fabiana Marques do Carmo, negra, candomblecista, lésbica, periférica de São Paulo, assistente social, mestranda do Programa de Pós- Graduação de Antropologia, da Universidade Federal da Grande Dourados- UFGD e Bolsista Capes, Mato Grosso do Sul - Brasil. Estudante da especialização em Lato Senso em Cidades, Planejamento Urbano e Participação Comunitaria, do Programa do Instituto das Cidades, da Universidade Federal de São Paulo- UNIFESP. Especialista em Direitos Humanos, Diversidade e Violência-Universidade Federal do ABC.

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