Eu e os livros - Por Terezinha Morais
Minha relação com os livros começou cedo, precoce, minha mãe dizia que eu aprendi a ler e escrever antes dos três anos, acho exagero, nessa época, eu ainda mamava no peito e me alimentava de leite materno e não de palavras.
Acredito mesmo, que descobri as palavras com sentido por volta dos quatro anos, uma boa idade para entender o significado daquelas letrinhas preciosas formando frases. Minha mãe adorava nos dar gibis e enquanto meu irmão clonava os desenhos, eu clonava significados das frases em minha cabeça. Por estudar em uma escola filantrópica renomada, fui apresentada cedo a livros doados interessantes. Candido de Voltaire, O pequeno príncipe de Exupery, o tão falado racista Monteiro Lobato, Clarice Lispector, alguns alemães e tantos outros soltos na pequena biblioteca. Conheci cedo os amigos, responsáveis por deixar menos vazia minha vida ao mudar de escola. Narizinho, Pedrinho, tia Anastácia, o saci, Emília, consumia-os com voracidade. Aos 11, já passara por todas as aventuras da falante boneca e da menina de nariz arrebitado, sem críticas. Descobri então, a biblioteca pública e meu mundo se expandiu, Machados, Marios, Lygias, Clarisses, Camilos, Cecílias, Vinícius, versos, romances, contos.
A literatura fazia seu papel, dava à menina pretinha sonhos, esperanças de dias melhores. Preferia as páginas, as saídas, aos bailes, preferia a leitura musical, aos shows, preferia ler a me relacionar com aqueles que se interessavam somente pelo meu servir, escrevia, tentar dar as letras, meu próprio significado. Nunca fui a melhor aluna, mas com certeza, era a maior leitora da turma, sempre com um livro na mão, uma história na cabeça, um sonho a realizar, algo a contar.
Os cursos técnicos, não roubaram de mim a paixão pelos escritos e os escritores sempre aumentavam. Nunca tive um favorito, passei por vários, eram sempre rápidas paixões. Uma vez flertei com Danielle Stel, o flerte durou alguns romances, até a crítica não aceitar ser capacho para ter amor, o amor romântico não me contemplava. Tornei-me técnica em contabilidade e passou. Tornei-me técnica em enfermagem, descobri o amor por cuidar, fiz cursinho e descobri-me fã das Letras. Fui à universidade, perdi meu tesão, aquele amor pelos livros se foi, o racismo, as críticas e o não lugar, fizeram de mim expectadora, abandonei os livros, meus sempre amigos, abandonei a escrita companheira e acolhedora. O ano era 2010 pausei-me.
Em 2011 li textos de alunos, redações programadas, palavras decoradas em cursinho, escrita padronizada, aquela que nunca consegui ter, eram tantas palavras, sentido algum, textos esperando avaliação e nota para o vestibular, continuo.
2013 reencontrei os livros, uma tentativa de escrita, uma gravidez, uma menina, minha continuação, meu renascimento, ela mamou de minhas leituras.
2015 terapia, Conceição Evaristo em 2017, livros aos montes, meus “olhos d'água”, permissão de ser, existir, escritos dela, histórias nossas, lágrimas rolam sempre, os anos passaram.
O ano é hoje. Autores negros Cuti, Lazaro, Elizandra, Esmeralda, Carolina, bell, Angela, Lélia, Joice, Conceição choros, Victória, Gabriel, Ryane, Giovana, Sérgio, Thiago, Natalia, Jarid, Jeferson, Itamar, Geni, Eliana, Clovis, Audre, Carla, Abdias, Chimamanda, Pauline, Patrícia, tantas e tantos, novos livros, novas perspectivas, personagens negros, reinvenção de leitura, de teorias, de intelectualidade, de escritas de mim. Amor pelas histórias dos meus, os livros criaram vidas, agora eles contam as histórias de nossos ancestrais, aquelas que eu sempre precisei ouvir, trouxeram novamente a mim os amigos, agora muito mais reais, rio, choro, sangro junto, faço das deles, as minhas, somos protagonistas.
Terezinha Morais
Quem sou eu: Terezinha das Graças Morais Sousa, mulher preta, nascida e moradora da cidade de Franca, interior de São Paulo, mãe da Taiane, escritora, bailarina de dança do ventre em construção, vendedora autônoma, técnica de enfermagem, formada em Letras Português/Francês, especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela FAMART- MG.
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